Atividades lúdicas presenciais, como “Cabelo Maluco”, “Tênis Trocado” e outras propostas criativas que estimulam o humor, a imaginação e a descontração, possuem relevância central para o desenvolvimento global da criança e para a construção de vínculos saudáveis no ambiente escolar. Tais vivências proporcionam momentos de expressão simbólica, socialização, cooperação e pertencimento, fortalecendo o bem-estar emocional e a integração entre os pares.
Sob a ótica da neuropsicologia do desenvolvimento, o brincar é uma atividade integradora entre emoção, cognição e movimento. Durante o jogo simbólico e as experiências criativas, há ativação de circuitos cerebrais relacionados às funções executivas (planejamento, autocontrole e flexibilidade cognitiva), ao córtex pré-frontal (regulação da conduta) e ao sistema límbico (processamento emocional). Esses estímulos favorecem a formação e conexões neurais complexas, promovendo avanços nas habilidades de linguagem, empatia, resolução de problemas e criatividade — aspectos fundamentais para a aprendizagem significativa e para a saúde mental infantil.
De acordo com Lev Vygotsky (1991), o brincar é um espaço de elaboração simbólica e mediação social, onde a criança aprende a lidar com regras, emoções e papéis sociais. Jean Piaget (1976) também destaca que o jogo é uma forma de assimilação ativa da realidade, permitindo que a criança internalize conceitos e construa sua autonomia cognitiva. Já Howard Gardner (1994) reforça que o brincar estimula diversas inteligências múltiplas, como a corporal-cinestésica, interpessoal e intrapessoal, ampliando o potencial criativo e expressivo do estudante.
No campo da psicanálise e da psicologia do desenvolvimento, autores como Sigmund Freud, Melanie Klein e Françoise Dolto trazem importantes contribuições para compreender o valor simbólico do brincar. Freud, ao afirmar que “a criança é o pai do homem”, evidencia que as vivências da infância estruturam a personalidade e a forma de lidar com o mundo. Melanie Klein (1955) reconhece o brincar como via de expressão do inconsciente, permitindo que a criança elabore ansiedades e conflitos internos. Françoise Dolto (1985), por sua vez, entende a brincadeira como linguagem simbólica da criança, uma forma de comunicação autêntica que possibilita elaborar afetos, representar o corpo e constituir o eu em relação ao outro.
No contexto escolar contemporâneo, marcado pelo excesso de exposição às telas e pela redução das interações presenciais, essas atividades lúdicas se configuram como estratégias de proteção ao desenvolvimento emocional e social. Elas ajudam a prevenir o isolamento, favorecem o olhar empático para o outro e resgatam o prazer de viver experiências coletivas reais — um antídoto importante diante do empobrecimento das relações humanas mediadas pela tecnologia.
Outro aspecto de grande valor é o envolvimento das famílias nessas atividades. Quando pais e responsáveis participam ajudando os filhos a confeccionar seus adereços para o “Cabelo Maluco” ou a escolher o figurino criativo, estão partilhando tempo de qualidade, colaboração e afeto, fortalecendo os vínculos familiares e a parceria escola-família. Essa interação promove segurança emocional, autoestima e senso de pertencimento, consolidando um ambiente de aprendizagem integral que ultrapassa os muros da escola.
Assim, ao promover momentos em que as crianças possam rir, experimentar, criar, trocar papéis e brincar como crianças de verdade, a escola reafirma seu papel como espaço de desenvolvimento humano, emocional e cognitivo. Trata-se de uma prática neuroeducacional que compreende o brincar como um direito, uma linguagem e um caminho essencial para formar sujeitos criativos, saudáveis e socialmente integrados.
Referências:
• BRITES, Luciana; BRITES, Clay. Mentes únicas: como entender e estimular o potencial das
crianças com dificuldades de aprendizagem e comportamento. São Paulo: Papirus, 2019.
• DOLTO, Françoise. A causa das crianças. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.
• FREUD, Sigmund. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol. VII. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
• GARDNER, Howard. Estruturas da mente: a teoria das inteligências múltiplas. Porto Alegre: Artes Médicas, 1994.
• KLEIN, Melanie. A psicanálise de crianças. Rio de Janeiro: Imago, 1955.
• PIAGET, Jean. A formação do símbolo na criança: imitação, jogo e sonho, imagem e representação. Rio de Janeiro: Zahar, 1976.
• VYGOTSKY, Lev S. A formação social da mente: o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores. São Paulo: Martins Fontes, 1991.
Por Paulo Lima – Neuropsicólogo do Colégio Dom José